Lição #54: Assista resenhas

Nossa, faz tempo que não escrevo para essa coluna, né? Última postagem foi em 2023! Entretanto, se você é leitor antigo, sabe que tenho muito apreço por essa coluna. Inclusive, foi por conta dela que consegui publicar meu livro. Então, me fiz uma promessa: vou tentar manter alguma constância aqui e não deixar a coluna morrer. Em todo caso, vamos começar a lição de hoje?

Sim, a lição é bem simples: pode ser muito vantajoso para você assistir a vídeos de jogos de tabuleiro. Essa lição é quase que inspirada na Lição #1: Jogue muitos jogos diferentes. Afinal, é necessário criar um portfólio mental de jogos de tabuleiro, com mecânicas, interações de sistemas, temáticas e uma série de outros conhecimentos que serão úteis para qualquer criador de jogos.

Entretanto, muitas vezes não é possível. Seja por falta de tempo, já que as pessoas estão cada vez mais atribuladas. Seja por falta de pessoas, afinal, costumeiramente jogamos com outros seres humanos. Seja por falta de jogos, claro, vai que você quer conhecer dungeon crawlers e não conhece ninguém que tenha? Sendo assim, uma alternativa viável a jogar jogos é ver outros jogando. Ou ver outros explicando como o jogo funciona. Ou, simplesmente, você queira criar um jogo de um estilo que nunca criou e precisa consumir o máximo de conteúdo no mínimo de tempo. Os vídeos estão aí para facilitar, e muito, sua vida.

Vou contar duas situações nas quais essa lição se fez crucial. Não gosto de jogos de vaza ou de carteados em geral.  Talvez por nunca ter tido o costume de jogar baralho ou simplesmente por não gostar de contar cartas ou por achá-los aleatórios em um grau que não me agrada. Só que todo mundo aqui tá vendo a crescente procura por carteados. Seja pelo público que aparentemente enlouqueceu e precisa de 20 jogos com a mesma mecânica ou seja pelas editoras que estão se recusando a publicar jogos que não sejam compostos apenas por cartas. Sendo assim, resolvi criar meus carteados.

Meu joguinho de escalada.

Apesar de não curtir o estilo, eu tenho um amigo que adora. Por consequência, joguei trocentos jogos. Sim, mesmo sem gostar. Não é algo incomum, acho que faz parte da vida do criador de jogos ir atrás de conhecimento em territórios que considera nefastos. Entretanto, isso não foi o suficiente para me dar um arcabouço interessante na construção de algum jogo meu de cartas. Eu precisava entender melhor, ver a evolução desses jogos, ver o que existe mundo afora. O que fiz? Vi vários vídeos de um criador de jogos que é entusiasta do estilo. Talvez, se você curte carteados, até conheça ele: Taylor Reiner do canal Taylor’s Trick-Taking Table, pelo visto ele curte a letra T. Talvez o que você não soubesse é que ele é criador de jogos. Eu não sabia, mas não me surpreendi. O conhecimento do camarada é bom, fora a percepção que ele tem dos jogos que analisa. Muito bom mesmo. Recomendo.

Em todo caso, ver esses vídeos me foi muito útil para tentar pensar em algo diferente para meus jogos. Assim como ver o que funciona e tentar pensar no que não funciona para evitar usar. Então, mesmo não tendo jogado 100 jogos de carteado, eu conheci uns 100 jogos de carteado por intermédio dos vídeos. Então, foi muito bom encontrar um canal especializado no assunto e ver comentários de alguém que entende.

A segunda situação foi com Letreiro. Jogo que iniciei em 2023 e meio que fechei em 2024. Recebi até mesmo proposta de contrato e recusei. Não por ser estrelinha, mas por não quererem sequer colocar uma data máxima de publicação. Aí é demais, né? Vou assinar e o jogo ficará preso para sempre? Vou assinar e ficar ansioso por anos esperando o jogo sair e nada? Me arrependo de não ter assinado? Um pouco, pois não consegui nenhum contrato depois disso. E olhe que apresentei o jogo em Essen com muita empolgação, duas editoras ficaram com o protótipo, mas nada rendeu. O motivo? Dar dicas estava complexo demais. Até mesmo chato. Pior é que eu concordo com essa observação, consigo até mesmo enxergar isso como um problema. O jogo estava muito voltado para um público cracudo de Word Games que não se incomoda em pensar vários minutos na melhor dica possível para lascar seu adversário na dedução da sua palavra. O que é uma parcela ínfima do público real, cuja expectativa é um jogo mais leve.

Nova versão de Letreiro, vê que pecinhas chiques.

Em todo caso, eu já tinha meio que perdido as esperanças com Letreiro. Já tinha assumido que era um problema sem solução e meu arrependimento de não ter assinado aquele contrato aumentou bastante. Afinal, era melhor ter o jogo assinado sem saber quando/se seria publicado do que ter a (aparente) certeza de que ninguém iria querer o jogo. Só que aí, lá estou eu vendo um vídeo sobre um jogo de dedução quase que infantil chamado Deduckto e pimba. A mecânica de dar dicas no jogo é bem simples e pensei numa maneira para adaptá-la pra Letreiro, já que são jogos bem diferentes em sua dedução final. Me empolguei, fiz um protótipo completamente novo para o jogo, já que não seria mais possível usar o antigo para implementar a ideia atual. Testei e senti aquele quentinho no coração. O mesmo que senti com Pitaco, na época em que o jogo não funcionava, mas tinha um potencial enorme. Até que uma singela modificação fez o jogo brilhar. Então, estou torcendo para que (novamente) alguma editora compre a ideia de Letreiro e seu destino seja similar ao de Pitaco: um jogo bonitão, acessível, divertido e bom.

Então é isso. Duas situações: uma de pesquisa direcionada e outra de total acaso em que a singela ação de assistir vídeos me ajudou bastante no processo de criação. Lição simples só para renovar as esperanças e manter a chama acesa.

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